Fórum mundial defende biodiversidade na alimentação

Autor(a): Patricia Logullo

Especialistas de todos os continentes reuniram-se no dia 15 de outubro de 2009, em Roma, para discutir políticas para a biodiversidade na agricultura e pecuária de maneira a garantir a segurança das fontes de alimento e sua capacidade de se adaptar a mudanças ambientais nos próximos anos. Durante o Fórum foi divulgado o tema do Dia Mundial da Alimentação Biodiversidade e segurança alimentar, O brasileiro Jean Marc Von der Weird, da Assessoria e Serviços em Agricultura Alternativa (ASPTA), esteve presente ao Fórum.

O Dia Mundial da Alimentação é comemorado desde 1981, com um tema diferente a cada ano. Trata-se de uma oportunidade para discutir maneiras de cumprir com o compromisso internacional de reduzir a fome pela metade até 2015 (firmado no World Food Summit). Em sua conferência hoje em Roma, o diretor-geral da Food and Agricultural Organization of the United Nations (FAO), Jacques Diouf, declarou que a ameaça à biodiversidade pode comprometer seriamente a segurança alimentar global (veja trechos abaixo). Para Diouf, pequenos agricultores são os grandes defensores do patrimônio genético e, por sua contribuição à qualidade do alimento, devem receber incentivos.

A FAO estima que as populações no mundo dependem de apenas 14 espécies de mamíferos e aves para a oferta de 90% de seus alimentos de procedência animal e de apenas quatro espécies (trigo, arroz, batata e milho) para os de origem vegetal. Mais de 40% da superfície terrestre é ocupado por plantações. No entanto, mais do que grandes monoculturas, os produtores dos países em desenvolvimento provavelmente precisarão mais de uma variedade maior de plantações e criações que possam sobreviver melhor às mudanças climáticas e às doenças. Portanto, a diversidade dos cultivares pode ser a melhor proteção contra a fome, ao mesmo tempo em que os consumidores se beneficiam de uma dieta mais variada e nutritiva.

Prêmio para a biodiversidade

Além de garantir um maior número de espécies cultivadas ou criadas, a FAO defende que é essencial conservar a diversidade genética dentro de cada espécie. Quando fazendeiros abandonam determinados tipos de cultivares para investir mais naquelas com maiores resultados na produção, muitas raças ou subtipos podem morrer... junto com suas características nutritivas específicas. Em consonância com esse pensamento, a FAO selecionou entre mais de 800 pesquisadores do arroz e premiou, este ano, o trabalho da equipe de Youyong Zhu (primeiro lugar), presidente da Universidade de Agronomia de Yunnan, na China, e Takuji Sasaki (segundo lugar), diretor do Departamento de Pesquisa do Genoma no Instituto Nacional de Ciências Agrobiológicas (NIAS) no Japão, por sua contribuição no avanço nas pesquisas sobre o alimento mais consumido nos dois países.

O trabalho de Zhu mostrou que usar a heterogeneidade genética (variabilidade dentro de variedades genéticas de arroz) pode efetivamente reduzir a gravidade de uma doença importante das plantações de arroz, a brusone (provocada pelo fungo Pyricularia grisea). Trata-se de uma abordagem ecológica que pode proteger grandes plantações.

O estudo de Sasaki demonstrou o seqüenciamento completo do cromossomo 1, o mais longo do genoma do arroz. Isso poderá auxiliar os produtores a identificar a função dos genes e, conseqüentemente, permitir a seleção de variedades mais resistentes e de melhor conteúdo nutricional, de acordo com Louise Fresco, diretora-geral-assistente do Departamento de Agricultura da FAO. “A heterogeneidade do arroz é relevante para a produção sustentável”, declarou.

“Ambos os trabalhos claramente merecem os prêmios não apenas pela excelência científica, mas também por seu impacto potencial na indústria internacional de arroz”, declarou Ronald P. Cantrell, diretor-geral da International Rice Research Institute (IRRI), no último dia 6. “Os dois pesquisadores podem se orgulhar do fato de que esses prêmios foram concedidos com base nos trabalhos publicados”. Referências aos dois artigos seguem ao final deste texto.

Trechos da conferência do diretor-geral da FAO

“Como têm feito ao longo da história, pequenos produtores agrícolas e pastores têm protegido e aumentado o estoque mundial de recursos genéticos. Fazendo isso, contribuem de maneira muito importante para a segurança alimentar.”

“Em muitos lugares no mundo em desenvolvimento, a conservação e uso de recursos genéticos vegetais têm sido sempre responsabilidade de mulheres”.

“A biodiversidade nos oceanos do mundo tem papel vital na segurança alimentar e na vida no campo. Entretanto, está sendo ameaçada pela pesca excessiva, pelas práticas de pesca que ameaçam o ambiente, pela introdução de espécies ameaçadores e pela destruição dos habitats”.

“Hoje comemoramos nossa tremenda riqueza de biodiversidade e a promessa que ela oferece contra a fome mundial. Para que isso aconteça, é preciso o compromisso de todos e, como na natureza, nossa força depende da nossa diversidade.”


Referência(s)

Zhu Y, Chen H, Fan J, Wang Y, Li Y, Chen J, et al. Genetic diversity and disease control in rice. Nature. 2000;406(6797):718-22.

Sasaki T, Matsumoto T, Yamamoto K, Sakata K, Baba T, Katayose Y, et al. The genome sequence and structure of rice chromosome 1. Nature. 2002;420(6913):312-6.

Barbour B. Winners of the International Year of Rice Global Scientific Contest Announced. Disponível em: http://www.fao.org/newsroom/en/news/2004/51013/index.html. Acessado em 15/10/2004.

FAO. Biodiversity – our food supply depends on it. Disponível em: http://www.fao.org/wfd/whatis_2004_en.asp. Acessado em 15/10/2004.

Antonios P. World Food Day 2004 highlights the importance of biodiversity to global food security. Disponível em http://www.fao.org/newsroom/en/news/2004/51140/index.html. Acessado em 15/10/2004.

Mais de 50 atividades estão programadas na “Semana da Alimentação” no Brasil. Para saber como diferentes países comemoram o Dia Mundial da Alimentação, consulte: http://www.fao.org/wfd/events_en.asp

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